eu quero saber o que você sente, o que pensa sobre nós, já que estamos juntos agora há três anos… ou serão três horas?
três? não sei… não me lembro, mas não entendo…
o que?
não sei… (eloquente) porque quebrar este silêncio tão palpável e tentar construir algum sentido abstrato na concretude do momento que nos envolve… (quebrando a eloquência) não sei se estou sendo coerente, se algo do que digo é compreensível. naquela noite, em que nos conhecemos, quer dizer, nesta mesma noite, quando você se aproximou, e nos beijamos, nada parecia fazer sentido. você me entende? me parece natural ir em busca do que não faz sentido, ou talvez eu esteja fugindo dele, do sentido. e que sentido há em buscar o beijo se não há desejo, se não há tesão, se não há sublimação no beijar? que sentido há em viajar se não há saudade? a vida não possui sentido. pelo menos a minha, de algum tempo pra cá, não possui sentido algum. como um castelo que se desmancha por ser feito de palavras que só possuem um significado porque ele foi criado para dar sentido à existência do significante. como a criança que descobre o relógio de pulso no braço do papai-noel, e de repente alguns pêlos negros por baixo da barba falsa… parece que tudo começa aí… depois, muitos anos depois, fica fácil compreender porque aquela criança estava batendo na porta da casa da sua família em plena noite de natal, e depois de ser acolhida, recebida, presenteada com o que havia de melhor e mais inútil; depois ela tinha que ir embora, e não podia sair sem levar aquele celular que estava ali de bobeira e cabia no bolso. não é que você esteja enfeitando as coisas, mas me parece que faz muito mais sentido deixar as coisas, os fatos, os gestos sem a moldura das palavras… o raciocínio é confuso, e é sempre preciso reconstruir de um outro modo, pra deixas as coisas mais claras, mas de uma claridade que ofusca.
quando se está à beira da morte, qualquer sentido é inalcançável.
eu vi o ninho de ratos ser sugado pelo trator na colheita de trigo. eu vi a plantação de cana em chamas, e a chuva de fuligem cair sobre a cidade, enquanto uma serpente tenta fugir pela longa estrada de asfalto; os lagartos em desespero; os cachorros uivando… eu olhei nos olhos do camarada que tacou fogo na casa da mulher, e ele me agradeceu quase em prantos enquanto eu me culpava por tudo, e isso não é ilusão, a culpa me vinha de dentro desde a barriga de minha mãe, desde o escroto de meu pai. eu sei que não temos culpa de nascer, mas nascemos para sentir a culpa de existir. nem sei porque estou te dizendo tudo isto, transformando essa conversa num monólogo sem cabimento, mas é algo que sinto, se te satisfaz, é parte do que penso, mas uma parte de um todo muito distante, muito informe, de algo que em sua origem era apenas música e imagens que não consigo reproduzir.
quando nos conhecemos, estava escuro, ao menos esta é a imagem que restou, havia uma fogueira e algumas pessoas que liam poesias e cantavam seus sonhos. havia um céu enorme, muito concreto, e algumas árvores ao redor. um lugar abandonado, quase em ruínas. eu estava sozinho. era como estava. eu pensava na harmonia e no caos. no momento em que nos beijamos havia muitas cores escuras, muitos ruídos, uma confusão de sensações que infelizmente não se repetem, e nem podem ser explicadas. havia um calafrio. havia uma mistura de harmonia e caos que oscilava em pêndulo. havia a completa ausência de sentido por um longo tempo. no momento em que transamos, havia o tesão. eu não sabia o que estava fazendo, de certa forma até hoje não sei. o acordo foi tácito. o amor não tinha nome. era realidade, e depois dormiríamos. era sem espera, era chão, era acima de uma cidade sem cor e sem alma. era único, e ao mesmo tempo outro. não me pergunte… hoje é concreto. hoje não sei… hoje esperamos. mas acredite que tudo isto é ficção; a realidade não possui este fundo branco. a realidade não… e tu que és mais bela que uma semente de girassol no bico do papagaio deslumbrante desta porta… uma mácula desnecessária no silêncio e no nada… está vendo como tudo é plágio? você não é infeliz? como saber… nascemos todos loucos… alguns continuam, mas e os outros? o que acontece com os outros? hein? vão procurando alguma coisa para dar a impressão de que existem, no difícil parto, do útero para o túmulo. o coveiro ajuda, lento, com o fórceps. Dá o tempo justo de envelhecer, e o ar fica repleto de gritos. você me entende?
?
(contrabaixo) sol……..ré…………sol…………ré bemol……………………………………………..
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