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Garota no Natal

Hoje ela veio de noite

vestida de cinza

pra me despertar

chamou meu nome

tomou um gole

tragou fundo

esculpida em mármore

e me disse

com toda a sabedoria

de seus dezesseis anos

“não fique aí sentado

esperando um milagre de natal”

O amor, baby,

o amor é fatal.

Vontades

Mas não é perigoso? – ela me perguntou. E imaginei Amyr Klink antes de partir em sua primeira grande viagem pelo Atlântico, sozinho, claro, porque ele não queria alguém junto com ele para falar sobre o quão perigoso era aquilo. Não é como ouvimos falar, tal pessoa morreu em um acidente assim. Não. Todos os que tentaram antes dele haviam fracassado tragicamente, ou seja, morreram. Mas ele sabia o que era ainda mais perigoso. Ele conhecia os verdadeiros perigos da vida. A pior forma de naufrágio, como ele deixou bem claro, registrado em língua escrita, resta na iminência eterna: não partir. E os que partem sabem do alívio que se tem por não ter sentido o enorme peso da idéia que não saiu da mente, e ali ficou como um tumor, crescendo lentamente, e que um dia pode matar de repente. Quando se está no percurso, não se sente o peso, e se pode morrer um pouco melhor do que quando ficamos, e vamos ficando, e um dia acabamos este ficar, e só. Simplesmente não fomos. E o que morre conosco é muito pouco, quase nada, e é o que somos, o que fomos, e o que seremos para sempre nas palavras dos que se lembrarem de nós. Pois eu quero estar sempre indo, e algumas vezes voltando. É por isto que Sena morreu indo. Era o que ele fazia. Muitas vezes se morre nos intervalos, que são muitos, e quase necessários, para que a vontade de ir cresça um pouco e tome forma novamente, e aí é tudo novo de novo. Loucura é ficar. Pois senão por que é que se está aqui? Quando crianças, ainda conseguimos ir um pouco mais livres, e ver o novo, e aprender. Aprendemos a ver, a ouvir, a andar, a falar, a correr, até que um dia nos ensinam a trabalhar. Depois disso não nos ensinam muito mais, e tudo o que queremos aprender é besteira. Que seja aprender a escrever. Que idéia! Se o governo fica sabendo você acaba preso por atitudes subversivas. E nunca mais sabemos como é sentir aquele alívio da criança que pode andar e perguntar e desenhar nas paredes, e criar, sem deixar a vontade passar. O artista e o cientista também sabem como é aliviante ver o pensamento tomar forma e sair para fora, para o mundo. É mais uma coisa que não vai morrer com a gente. E vamos deixando pedaços de nós mesmos, resultados de grandes expedições, representando muita coragem. Coragem de se mostrar por dentro, se colocando para fora. Senão, então, o que é que temos de nosso? O que é que temos aqui dentro? Vontades que deixamos envelhecer, pedaços de nós que matamos antes que eles tomem forma, pois talvez temos medo deles, medo de nós, de tudo o que podemos pensar, criar, fazer, transformar, e ninguém saberá do que éramos, pois não chegamos a ser por completo. Ninguém nos disse que podemos ser, então, deixa pra lá. Tem muito mais que eu quero dizer, mas não vou. Não importa. Agora eu tenho que trabalhar, pois isso de escrever é para os desocupados.

Tecnocrata

A agulha é depositada sobre o vinil
as 34 rotações por minuto, não sei porque,
não sei como, aquilo é transformado em som
e o som é bom.
A vontade se foca na música,
e é nela que repousamos,
não no dinheiro, nem no vinil,
nem mesmo no aparelho de som.
É a saciedade do comer, do beber,
do correr, do voar, do foder,
do entender,
ou do sentir,
que está na coisa,
mas não é a coisa,
e pode estar do mesmo modo
em outro aparato
tecnológico,
somos,
sim,
tecnocratas.

Fim da noite

Lá longe, é onde eu vou morar.
Onde?
Lá longe.
Longe? Mas longe de que?
De vocês, é claro,
e de todo o seu ruído,
mas não tão longe,
que eu não possa visitar,
pra comprar uns discos, filmes, livros,
se até lá não estiver tudo de graça na internet, claro.
Mas longe da gente?
Isso, fica melhor assim,
longe da gente.
Se tiver emprego.
Se tiver dinheiro,
pra manter a terra.
Se tiver uma caixa de som,
pra tocar CD e vinil,
e um piano, mais um órgão Hammond,
um mato pra eu mijar,
uma mulher
que venha me visitar,
e que esteja sempre a me esperar.
Amigos sempre ao alcance
pra tocar aquela música
e dividir uma garrafa,
um cachimbo,
uma varanda
e esperar o galo cantar
no fim da noite.

"'Coragem, Ferdinand', eu repetia, para me aguentar,
'de tanto ser posto no olho da rua em todo lugar você
certamente há de acabar descobrindo o troço que lhes dá
tanto medo, a todos eles, a todos esses filhos da puta,
sejam quantos forem, e que deve estar no fim da noite.
É por isso que eles não vão até lá, até o fim da noite.'"
(Louis-Ferdinand Céline, Viagem ao fim da noite, pg. 236, Companhia de Bolso, 2009)

Que eu sei que embaixo desta neve mora um coração

“Para deixá-la, precisei de muita loucura, e de um tipo frio e abjeto. Seja como for, defendi minha alma até agora e se a morte amanhã viesse me pegar eu nunca seria, tenho certeza, tão frio, malvado, tão pesado quanto os outros, de tanta gentileza e de tanto sonho que Molly me deu de presente durante aqueles poucos mesess de América.”

(Louis-Ferdinand Céline – Viagem ao fim da noite)

Meia noite em Paris

http://www.youtube.com/watch?v=zs_DD_7C8_A

Favor ouvir música acima enquanto lê texto abaixo.

Seria muito bom, caro Woody, viver um final feliz em Paris; mas como Hamingway bem nos mostrou, há um pouco mais de guerra em tudo isto. E nem sempre tem finais felizes nas guerras. Nós, reles seres humanos nascidos em outras eras, outros mundos, terceiros mundos, os nossos, não somos tão bons atores quanto os seus. Não sabemos como, após as centenas de anos que passamos nas mãos dos poderosos: os mais fortes, os armados, os endinheirados, qualquer que seja o nome que lhes deem; tentamos, mas não sabemos como dar um final feliz ao nosso roteiro. Nossas imagens podem ter a beleza parisiana que só a tristeza traz, mas não temos a produção Holiwoodiana para parecermos belos aos olhos da riqueza. Nosso tempo passado não tem nobreza, e nosso futuro não existe. Ninguém veio nos visitar de amanhã para dizer o que nos reservam os deuses, e a morte, como ousa? nossa morte não é certa. Temos medo dela, sim, pois não sabemos quanta dor ela nos reserva. Fomos ensinados a temer o inferno, mas o que está por vir antes dele é ainda pior; e qualquer que seja a amenidade que nos aguarda ao fecharmos os olhos, não esqueceremos jamais a barbaridade que vimos de olhos bem abertos. O amor, caro Céline, hoje entendo, é o infinito colocado ao alcance de cachorrinhos.

Um copo de rum,

charuto cubano,

música de algum lugar,

latino-americano,

vinnho argentino

e queijo minas

com orégano brasileiro

e azeite português.

DVD chinês,

televisor japonês,

a garota…

esqueci de perguntar,

mas tem um jeito interiorano,

do interior paulista.

O livro sobre a mesa é americano,

o poster jamaicano,

e este poema

não tem pátria, nem motivo, nem ano.

Primeira Guerra Mundial

Corpos caídos ao chão,
alguns vivos; outros não.
Muito sangue por toda parte,
outras secreções, excreções,
o cheiro de doença,
o cheiro de sexo e morte,
eu também, meu bem,
tento desviar, tento não olhar,
covardemente fujo da guerra,
mas fora dos campos não há ninguém,
e os poucos que vagam por ali
enlouqueceram.
Pare o carro, ouço o grito,
mas eu fecho o vidro e acelero.
Às vezes eles não querem sair do poço,
mas se sentem solitários lá em baixo,
e te chamam para a festa.
A guerra persiste
o medo persiste
e não há uniformes pra nos dizer
se há aliados
ou só inimigos.

Um dia eu volto, meu amor,
quando a guerra acabar,
vou te levar uma flor
e meu coração sem pulsar.

Finado feriado

Confinado,
Bukowski e Céline me dizem que a humanidade nunca foi boa coisa,
e eu, com um olho roxo, um corte de cinco reais no cabelo,
(obra de arte)
parece que devo explicações a todo mundo
pelo meu estado que eles não querem ver,
como se fossem fazer alguma coisa,
como se soubessem resolver o seu problema.
Invento histórias pra contar
quando por acaso alguém me reconhecer.
É tudo o que eles precisam.
Histórias bastante aceitáveis,
dentro do que já esperavam,
e assim vão embora mais rápido.
Não que eu não tenha tempo,
mas prefiro gastá-lo sozinho,
fazendo o que quer que um homem possa gostar de fazer,
que me explicando, inventando,
apresentando um showzinho tão barato que eles nem agradecem;
vão embora simplesmente por se sentirem entediados.
Com certeza eles se divertiriam em saber a verdade,
aquele dia, você estava de bobeira,
com trinta mangos no bolso,
passando pelos bares da cidade,
gente chata bebendo, rindo, te olhando torto,
até que você vê uma garota na esquina.
Garota, diz ele.
E você até chega ao máximo prazer,
o modo mais prático de se satisfazer.
Credo! Dizem eles ao terminar o relato.
E te fazem perguntas,
querem saber dos detalhes, claro.
Na verdade estamos mesmo presos em nosso tempo
e em nossa cultura.
Apenas respondemos à situação,
da forma como nossos pais respondiam.
Mas chega de filosofia,
pois isto é poesia, baby,
a vida real, Belchior,
a vida é muito pior.

Plano Real

“Ei, garoto”, me disse a divindade, “tá na sua hora”. E, com seu chicote de ouro, rebentou-me as costas para me mandar ao meu novo dono, a quem eu deveria obedecer e respeitar como ser de infinita superioridade; e tudo o que ele me desse: o pão, o conforto, a moral; eu deveria aceitar de cabeça baixa, e sorver. Um dia, muito em breve, eu seria novamente vendido a um novo senhor, e viver sob suas regras, como eterno escravo que sou, sob a ameaça constante do chicode dourado que se transforma cada hora em uma figura mais temível e horrorosa. Segurei o palavrão para não provocar a divindade e desgraçar ainda mais o meu destino.

Eram quatro horas da manhã. Segunda-feira. Eu estava em meu apartamento naa Rua da Consolação, em São Paulo, jogado no sofá velho e confortável, com minha garota ao meu lado. Eu aproveitava o dinheiro que sobrara das últimas duas semanas intensas de trabalho, e voltaria na outra semana. Mais três amigos dividiam o apartamento de quatro quartos. Dois estavam dormindo. O outro estava sentado no outro sofá, com sua garota deitada com a cabeça sobre suas pernas. Garrafas de vinho e vodca se espalhavam pelo chão entre cinzeiros sujos, pratos com restos de calabresa e batata frita, e caramba, quem foi que deixou aquela camisinha em baixo do sofá? “Putz, não vou jogar fora agora”, ele me respondeu. Deixa pra lá; a gente tava falando sobre a efemeridade das coisas. Continua. “Não é só a efemeridade das coisas. É principalmente uma fragilidade muito grande que envolve a própria realidade, e a física moderna vem levantando essa questão sem que a mídia informe a populaação.” À nossa frente, a televisão ligada exibia a imagem fixa com o número da música que eu tinha colocado no pequeno aparelho de DVD que eu tinha ganhado de Natal. Faixa 03 “Adagio molto e cantabile – Sinfonia nº 9″, Beethoven. Pra falar a verdade, eu nem sabia se tinha antena pra televisão no apartamento. O que quer que a mídia estivesse divulgando, nós não queríamos saber. Nem se fosse o fim do mundo. Voltei às palavras do orador da turma enquanto tomava um gole de vodca com gelo. “Se você for ler o Édipo Rei, de Sófocles, vai perceber que tudo se passa em um período de tempo muito curto, e os acontecimentos realmente trágicos já se passaram antes da peça começar. É só quando o personagem toma conhecimento deles, por meio da linguagem, que o mundo desmorona. O desmoronamento é interno, e quase virtual. Virtual mesmo sao os fatos para os olhos do leitor, que se emociona com uma história que já comovia espectadores de teatros milhares de anos atrás. Os dramaturgos não precisavam escrever todas as peripécias de um herói; apenas o conflito interno que desemboca em um desmoronamento de toda uma realidade que se dá quando o indivíduo ficcional descobre as atrocidades que cometeu, como no caso de Édipo. Agora a ciência vem nos dizer, mais de dois mil anos depois, que a realidade só existe para os olhos do observador, e nenhum dos dois tem nada de consistente o suficiente pra que a gente possa dizer que um ou outro existem de fato. O universo depende de nós para ser universo. Ele está dentro de nós, e nós podemos fazer o que quisermos com ele. Claro que temos que descobrir como fazer, mas tomar conhecimento do fato é o primeiro passo pra chegar a modificá-lo em nosso benefício. É o que eu ouvi dizer.” Pois bem, meu caro Sófocles, em breve dominaremos, não apenas Tebas e Atenas, mas todo o universo moderno. Mas antes, me passa o isqueiro e a garrafa de vodca.

Acendi um charuto, peguei três pedras de gelo e enchi meu copo e o copo da garota ao meu lado, que de repente, com seus cabelos longos, lisos e negros, quebrou o silêncio. “Quem sabe está é a nossa forma de mudar o mundo, se a verdadeira mudança é aqui dentro. Os monges meditam; os velhos assistem tevê; e nós bebemos, fumamos, tranzamos… qualquer coisa que nos faça sonhar.” Com sua voz doce, fez ecoarem as últimas palavras da noite. Todos estávamos já de olhos fechados e mente aberta. O charuto se queimava numa fumaça densa descansando na beirada da mesa, e o gelo estalava ao derreter no copo de vodca. Uns sonharam com florestas, outros com estrelas. Outros não se lembram; ou já não sonham mais.

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