“Ei, garoto”, me disse a divindade, “tá na sua hora”. E, com seu chicote de ouro, rebentou-me as costas para me mandar ao meu novo dono, a quem eu deveria obedecer e respeitar como ser de infinita superioridade; e tudo o que ele me desse: o pão, o conforto, a moral; eu deveria aceitar de cabeça baixa, e sorver. Um dia, muito em breve, eu seria novamente vendido a um novo senhor, e viver sob suas regras, como eterno escravo que sou, sob a ameaça constante do chicode dourado que se transforma cada hora em uma figura mais temível e horrorosa. Segurei o palavrão para não provocar a divindade e desgraçar ainda mais o meu destino.
Eram quatro horas da manhã. Segunda-feira. Eu estava em meu apartamento naa Rua da Consolação, em São Paulo, jogado no sofá velho e confortável, com minha garota ao meu lado. Eu aproveitava o dinheiro que sobrara das últimas duas semanas intensas de trabalho, e voltaria na outra semana. Mais três amigos dividiam o apartamento de quatro quartos. Dois estavam dormindo. O outro estava sentado no outro sofá, com sua garota deitada com a cabeça sobre suas pernas. Garrafas de vinho e vodca se espalhavam pelo chão entre cinzeiros sujos, pratos com restos de calabresa e batata frita, e caramba, quem foi que deixou aquela camisinha em baixo do sofá? “Putz, não vou jogar fora agora”, ele me respondeu. Deixa pra lá; a gente tava falando sobre a efemeridade das coisas. Continua. “Não é só a efemeridade das coisas. É principalmente uma fragilidade muito grande que envolve a própria realidade, e a física moderna vem levantando essa questão sem que a mídia informe a populaação.” À nossa frente, a televisão ligada exibia a imagem fixa com o número da música que eu tinha colocado no pequeno aparelho de DVD que eu tinha ganhado de Natal. Faixa 03 “Adagio molto e cantabile – Sinfonia nº 9″, Beethoven. Pra falar a verdade, eu nem sabia se tinha antena pra televisão no apartamento. O que quer que a mídia estivesse divulgando, nós não queríamos saber. Nem se fosse o fim do mundo. Voltei às palavras do orador da turma enquanto tomava um gole de vodca com gelo. “Se você for ler o Édipo Rei, de Sófocles, vai perceber que tudo se passa em um período de tempo muito curto, e os acontecimentos realmente trágicos já se passaram antes da peça começar. É só quando o personagem toma conhecimento deles, por meio da linguagem, que o mundo desmorona. O desmoronamento é interno, e quase virtual. Virtual mesmo sao os fatos para os olhos do leitor, que se emociona com uma história que já comovia espectadores de teatros milhares de anos atrás. Os dramaturgos não precisavam escrever todas as peripécias de um herói; apenas o conflito interno que desemboca em um desmoronamento de toda uma realidade que se dá quando o indivíduo ficcional descobre as atrocidades que cometeu, como no caso de Édipo. Agora a ciência vem nos dizer, mais de dois mil anos depois, que a realidade só existe para os olhos do observador, e nenhum dos dois tem nada de consistente o suficiente pra que a gente possa dizer que um ou outro existem de fato. O universo depende de nós para ser universo. Ele está dentro de nós, e nós podemos fazer o que quisermos com ele. Claro que temos que descobrir como fazer, mas tomar conhecimento do fato é o primeiro passo pra chegar a modificá-lo em nosso benefício. É o que eu ouvi dizer.” Pois bem, meu caro Sófocles, em breve dominaremos, não apenas Tebas e Atenas, mas todo o universo moderno. Mas antes, me passa o isqueiro e a garrafa de vodca.
Acendi um charuto, peguei três pedras de gelo e enchi meu copo e o copo da garota ao meu lado, que de repente, com seus cabelos longos, lisos e negros, quebrou o silêncio. “Quem sabe está é a nossa forma de mudar o mundo, se a verdadeira mudança é aqui dentro. Os monges meditam; os velhos assistem tevê; e nós bebemos, fumamos, tranzamos… qualquer coisa que nos faça sonhar.” Com sua voz doce, fez ecoarem as últimas palavras da noite. Todos estávamos já de olhos fechados e mente aberta. O charuto se queimava numa fumaça densa descansando na beirada da mesa, e o gelo estalava ao derreter no copo de vodca. Uns sonharam com florestas, outros com estrelas. Outros não se lembram; ou já não sonham mais.
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