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O que é, o que é?

Qual é o animal que escraviza indivíduos de sua própria espécie?

 

 

Dica: amplie a imagem; depois, cutuque um animal desconhecido, em seguida cutuque uma pessoa desconhecida na rua e compare suas reações.

Degraus

Eu subia os degraus da escada de meu velho prédio. Eram quatro andares, com um elevador manual desativado. Já no segundo lance de escadas, o sono do álcool não me deixava subir, e o calor me fazia suar. Um cigarro de palha descansava, apagado, em minha boca. Cada degrau era um abismo, e eu estava em baixo; muito em baixo. Não sei como consegui guiar a moto, uma Harley Davidson antiga, 883cc, que só falhava quando eu estava atrasado, mas nunca quando bêbado. Eu me apoiava no corrimão, quase me deitando sobre ele, e lançava todo o meu peso ao próximo nível. Me lembro da conversa com a garota dos cabelos longos, negros, pele clara, muito clara, rosto delicado. É um tipo complicado de se lidar. Sempre despertam um fogo intenso com seu negro olhar de profundidade ainda desconhecida, mas o que procuram é algo um pouco mais frio, talvez amor. Eu lhe dizia que não lhe podia amar. Eu gostava da maior parte do que conhecia dela, mas havia algo… como uma inocência daqueles que não querem ir além do que já conhecem, e eu sabia que logo teria que deixá-la para trás. Antes do próximo degrau, olhei para cima, apoiado no corrimão, e ele formava um caracol infinito que rodava, como uma daquelas imagens de que se diz serem hipnotizantes. Em mim causavam apenas náuseas. Com as duas mãos apoiadas, me joguei para o outro lado, contra a parede, afastando-me da náusea. Agora o rosto grudava na sujeira da parede branca, de um tom quase marrom-glacê. Um marrom-glacê, naquela hora, cairia bem. E eu o comeria sentado sobre o próximo abismo, devorando a lata toda do doce, sentindo o efeito doentil do álcool diminuir lentamente, e ele me daria energia suficiente para chegar ao quinto andar, como um alpinista experiente. Ela insistia que o amor era mais importante que tudo, e eu já não estava são o suficiente para explicar a ela que “amor”, se juntarmos Skinner e Korzybski, é uma palavra vazia. Mais um degrau, e dessa vez eu voltava a me apoiar sobre o corrimão. Pelo menos, ali, olhando para baixo, caso meu estômago resolvesse se manifestar, seria com uns bons três metros de puro estilo. Talvez a síndica me acusasse, mas não teria como provar. O segundo andar estava apenas três abismos à frente, e eu me lembrei da garrafa de vinho tinto suave que eu tinha deixado na casa da vizinha. Aquela loira deliciosa, que provavelmente tinha saído de um hospício para se esconder ali, três andares abaixo de mim. O deliciosa é relativo, claro, mas eu já não tinha tantas exigências quanto ao físico. O bom era que ela não falava demais. Apenas bebíamos, fumávamos, transávamos, e conversávamos o suficiente. Acho que ela trabalhava em uma loja de antiguidades. Tudo no apartamento dela era antigo e tinha uma história, mas ela resumia bem, e apenas quando eu estava com humor para perguntar. Esta cama foi fabricada na primeira fábrica a patentear camas no Brasil, durante a Segunda Guerra. Camas Patente. E era o suficiente para testarmos a cama. Nada mal. O próximo degrau foi mais fácil. Como um pombo que, ao acendermos uma luz, levanta a cabeça num processo que chamam discriminação. Eu ainda pensava na morena, e em como foi bom quando eu a levei para um motel, e ela ficou brava comigo, na porta do motel… que vexame. Então, pensei, vamos apelar para o velho romantismo, e talvez numa próxima ocasião ela aceite o motel. Levei-a para o local mais bonito da cidade. Uma velha pracinha, com poucas casas em volta, e um banco de pedra em frente um barranco imenso, protegido por um muro de arame. Ninguém poderia nos ver ali. A cidade, com seus quase um milhão de habitantes, e nós ali em cima, com uma garrafa de uísque escocês do bom. No carro tocava um blues lento, daqueles que combinam com strip-tease. E a gente se agarrava, se beijava, se lambia, se apalpava, mas os braços dela sempre barravam os meus em determinadas numa determinada área, para ela, perigosa. O perigo, baby, está no desejo contido pelas vozes do seu pai, dos seus tios, do seu irmão, te dizendo que você é uma boa moça, e por isso não deve deixar que qualquer um abuse de você. Mas mesmo que eu queira? Você não perguntou. Eu sei que ela não vai deixar, então, depois que o fogo foi apagado pelo vento do tédio, levei a menina branca de cabelos negros para casa. A casa dela. E saí acelerando pelas ruas da cidade, como num video-game, sentindo o rugir do motor, monstruoso, ecoando pela noite silenciosa, acariciando as curvas leves e apertando bem as curvas fechadas, apenas guiando com as pernas, apertando o tanque e jogando o corpo todo com leveza. Até que uma hora o motor engasga, puxa, e desliga. Tudo bem, eu entendo. Viro a chave da gasolina para a reserva e tomo o caminho de casa. Mais dois degraus e eu sei que vou cair na porta da vizinha loira, que a esta hora me assiste pelo olho-mágico, sem se dar ao trabalho de deixar a luz do apartamento apagada. Minha cabeça está levantada, a língua não cabe dentro da boca, e a respiração está ofegante, mas, deus, a vizinha loira faz um barulho, e nesse instante eu deixo o corrimão para me colocar ereto e elegante. Dois tapas na cara e o último degrau tem mesmo dez centímetros. Vou fingir que não sei que ela está ali, me espiando. Ela abre a porta, com minha garrafa de vinho, e minha camisa aberta. Sem nada por baixo. Eu sei mais. Sei que ela tem marrom-glacê na geladeira.

 
O que mais se pode esperar da sorte?

Estilhaços de um dia quebrado

Devia estar fazendo uns trinta graus. Eram onze da noite, quando eu te liguei, dizendo que queria que você estivesse ali, comigo. Pelo menos eu podia ver o céu, com algumas estrelas, algumas nuvens, e uma boa parte da cidade com suas luzes amarelo âmbar. Em parte, era mentira. Eu precisava de alguém. Alguém que não me enchesse o saco. Alguém que não me desse porrada. Alguém que só quisesse fugir comigo dessa realidade ilusória, estéril e filha de uma puta. O som era legal. O volume bastante agradável. Poucas pessoas. Umas colagens expostas que eu não entendi muito bem. O pessoal parecia ser simpático. O DJ falou comigo, me chamando pra próxima apresentação dele. Eu tomava uma cerveja, uma catuaba, procurando ficar bêbado o suficiente pra aguentar a solidão. Às vezes a gente procura coisas que sabe que não existem. Teve uma hora que eu estava sentado no sofá, e uma garota bonita passou, e disse oi, acenando com a mão, com um sorriso assim, como só os sorrisos femininos são, passando na minha frente, e foi conversar com o DJ, bastante afetuosa com ele. Foi aí que eu percebi que todo mundo que restava ali se conhecia, e conversava, devia ter umas vinte pessoas, e eu parecia um intruso, que todos sabiam que não era da turma. Pensei em perguntar alguma coisa sobre as obras expostas, quem sabe não rolava uma simpatia, e eu voltaria ali outras vezes, faria uma certa amizade… não. As obras expostas não tinham nada de mais, e eu sabia disso. Me levantei, terminei meu copo, e saí, em busca de um bar sem música muito alta, sem muitas pessoas, só pra não ter que voltar pra casa. Toda aquela ideia de ficar ali, tentando uma amizade com aquelas pessoas, com suas ideias, sua arte que eu não entendia… eles pareciam felizes sem mim. Melhor assim. Talvez eu estivesse me tornando um daqueles caras, que andam sozinhos por aí, sempre pelos bares, sentados no balcão, com seus copos, trocando poucas palavras com o pessoal do bar, e sempre indo pra outro bar. Mas eu também não estava mal. Só precisava de umas voltas ao som de Hendrix, mais uns copos, e uma companhia agradável; mas uma era suficiente. Duas pessoas além de mim era sempre desagradável. A não ser que fossem pessoas escolhidas a dedo, sabe, aquelas pessoas que já estavam longe demais. Aí sim, poderiamos juntar umas trinta, quarenta, e tudo voltaria a ser como nunca foi. Fora isso, era muita atuação barata pro meu gosto, essa coisa de ser simpático me parece sempre muito forçada, como quase todos os atores das novelas nacionais, ou os apresentadores dos piores programas. Eles todos são muito simpáticos. Eu não. Não tenho nada contra as pessoas, mas a maioria das que eu conheço não me interessam. À primeira vista, muitos podem parecer legais, mas depois de alguns minutos é bem provável que se tornem cansativas e repetitivas. Só não gosto de forçar as coisas. Como um filme, que por sinal é sempre feito por pessoas, eu só assisto se me parecer interessante, ou se tiver uma boa recomendação, de alguém confiável, ou se ele aparecer na minha frente, gratuitamente. Depois de poucos minutos eu sei se gosto ou não do filme. Logo chegaria o carnaval, e as pessoas poderiam se embriagar até o limite, e além dele, e ninguém tinha nada a ver com isso. De resto, tudo seria novamente insuportável, com excessão de uma ou outra garota de certa beleza que aceitariam a minha companhia, e muito mais. Às vezes acontece; às vezes não. É como quebrar um prato na parede. Você pega o prato, olha em volta, vê a sua chance, arremessa o prato, e tem um instante de encontro com o supremo prazer, como que adentrando no próprio conceito clássico de beleza, mas no instante seguinte, o prato está quebrado. Aí só me resta sentar, colocar um blues pra tocar, quem sabe, qualquer coisa do tipo, pegar um copo, fazer uma fumaça, enquanto todos esbravejam pelo prato quebrado.

 

Outro dia me disseram que estamos num país de terceiro mundo, mas a terceira tentativa não é a que sempre dá certo?

A fuga da lula


“A gente pode dar uma volta no quarteirão nessas noites que a TV não satisfaz e a cama tá vazia.” (Saco de Ratos)

I

- Eu tenho um plano.
- Qual?
- A gente sai na sexta e volta antes do natal.
Esse era o plano, sair na sexta e voltar antes do natal, tinha algo a ver com as montanhas, ou perto delas, algo parecido com isso, resgatar o velho espírito mineiro que estava se confundindo com o sentimento da confluência plana, sonsa, flat.
Será que alguém realmente sabe onde está indo? Caminhando sobre os trilhos de um andaime capenga tentando não olhar para baixo. Será? Pegamos a primeira estrada que estava à frente, alguma via expressa com nome estranho de um figurão político.
Talvez ficássemos na casa de um tio. Que tio? Ou talvez no apartamento de um amigo precisando compartilhar problemas e perigos. Na mala, um violão, uma escaleta, a velha barraca e uma garrafa do mais puro melagrião. Pode ser que tudo tivesse resolvido, mas provavelmente era só o começo de uma viagem, uma intuspecção na insanidade da alma de seres humanos como nós, perdidos e extremamente entediados com qualquer tipo de imagem repetida na retina.
- Dá uma volta no quarteirão, meu velho.
Era um quadrado legal, no meio das montanhas, ao lado da metrópole. Tinha um quarteirão por lá, diziam que era por ali que acontecia o amor e, não fosse a segunda volta da montanha, eu juraria que havia mar em algum lugar. Steven estava por lá, Sthendal também, assim como muitos outros que se encontram nas curvas das estradas e esperam a mudança do quarteirão de lugar, mas na verdade era ali mesmo que se encontravam, assim como a mala reluzente e a música que tomava cores pelo ar.
Impressionado com a movimentação eu tentei então dar a volta no quarteirão pra sentir o amor, pra me sentir mais em casa, talvez esse amor (e toda a fumaça) curasse o meu irmão que caminhava logo atrás de mim se contorcendo com as dores de um vírus que tentava coabitar seu corpo. Fraco e doente ele caminhava comigo mostrando a força que têm os soldados do tempo, os herdeiros da estrada.
- Eu estive por lá, Europa, amor. Eu estive por lá agora que a onda quebrou. O Dubstep é uma compilação da geração que toma o rumo das grandes navegações, o Dubstep é a onda que quebra junto com o sentimento das gravações por e-mail.
- Eu estive por aqui. Dormi em baixo de pontes e acompanhei caminhadas, acampei em praças, fui reprimido, comprei fumo de corda dos caras da rua, o Dubstep, o rap, o blues. Tá tudo junto.
Não havia como ser diferente. A reunião aconteceu na beira da estrada já que quem não tem raízes desliza seu caule pegajoso pelo outro lado da rua.
Como muitos outros que chegaram e como muitos outros que partiram, eu acabei também chegando e partindo, caindo em camas de hospitais, correndo pela estrada em busca de medicamentos esquecidos. Tive, afinal, que voltar. Mas a volta nada mais é do que um preparo para a nova partida. Creio que nessa carta desesperada já esteja submersa na lágrima da chegada o fogo da partida. Assim que recobrarmos nossa consciência, assim que o corpo se recuperar com a trégua merecida, novamente deslizaremos nosso caule pegajoso. Buscamos, de uma forma ou de outra, as águas calmas de um porto, as propriedades cicatrizantes da água do Atlântico para tentar fechar esse buraco que nem eu mesmo sei mais onde se escondeu. Ele se faz sentir toda noite e espero que doa assim como tem mesmo que doer, mas que, como o barco deixa o cais, ele também se vá e não volte mais.

Estúdio do I love Bubble.

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II

Quando eu voltei, enfim, lá estava ela a me esperar. Não que necessariamente já nos conhecêssemos, mas de alguma forma os lábios tomaram a cor da noite e disseram o meu nome enquanto eu tentava colocar um blues pra tocar na rádio da TV a cabo.
Ana Tula bebia vodka, eu bebia água. Era difícil acreditar, mas o teatro faz dessas coisas com as pessoas. Eu pensei mesmo por um tempo que realmente era o teatro, depois comecei a pensar que pudesse ser o sexo ou a noite que sempre atravessava levando um pedaço meu. Era isso que eu precisava cicatrizar com a água do mar, os pedaços que a noite me arrancava ao atravessar sem trégua um quarto de motel.
Eu sabia muito bem que ela queria e tentava evitá-la, até que se tornou quase impossível, em algum ponto, que suas pernas cruzassem o salão despercebidas. Quando dei por mim aquelas pernas já se misturavam às minhas e tudo o que eu pensava era levá-la ao banheiro para que a privacidade se entrelaçasse à embriaguez e então pudéssemos nos encontrar. Apesar de sempre desencontrado nos telhados alheios, eram pernas sensacionais.
O banheiro foi um erro. Quase sempre é. O carro é uma escolha plausível, mas pode haver engano demais e o físico não conseguir conter a barreira do espaço. Dado que tentamos ambos e a combustão dos corpos estreitava o vazio que havia entre nós, procuramos uma cama escondida em algum canto das ruelas da cidade mineira. Quando antes eu disse que voltara pra casa, eu quis dizer que voltava para o velho terreno que fui criado oscilando entre minha real casa e todos os arredores do que considero familiar. Sim, o banheiro foi um erro.
Adormecemos em uma cama. Lençóis brancos desvirginaram a pureza. Não, aqueles lençóis brancos nada tinham de pureza. Muito menos ela. Só havia pureza no frio que entrava pela janela (o frio que sempre entra pela janela) e no sol que nascia enquanto eu voltava para casa. Sim, eu voltava para casa sozinho, o sol se levantando na linha montanhosa do horizonte. Havia dormido pouco, mas a possibilidade de um café quente e um disco do Muddy me fariam agüentar mais algumas horas até chegar lá. Dirigindo e escrevendo eu tateava curvas da estrada em busca daquele lugarzinho que George nos prometera. É claro, Fred Sun Walk estatelava sua guitarra no porta luvas do carro, tente entender, tudo ficaria mais simples se eu chegasse mais rápido por lá ou até se conseguisse não me perder em uma das curvas no caminho, mas acontece que nada é tão simples.

III

É difícil falar assim sobre lulas e obviamente também é difícil falar sobre as mulheres. O que acontece é que Ana não era de toda má, o grande problema era não saber sobre a fuga da lula e todas as implicações anatômicas e filosóficas disso e, de qualquer maneira, sobre a metade que eu mais gostava da minha pinta, arrancada num só golpe. Ela não sabia nada sobre isso, nem sobre os segredos que guardam as escadas das igrejas pela madrugada com garrafas vazias e violões quebrados. O que faltava pra ela e pra muitas outras é essa sabedoria estranha que guardam as curvas das estradas e os cantos das folhas cortadas nas trilhas das praias que na verdade são as mesmas trilhas incas de Machu Picchu que ligam o Peru a São Tomé das Letras. Dessas trilhas que fazem a cabeça de três amigos com uma mochila e um amor estranho pela estrada. Essa fuga que ela nunca entendeu muito bem. Fuga que não é, na verdade, a mesma que a fuga da lula, mas ambas podem ter uma grande semelhança empírica quando bem feitas.
- Pra que essa mochila, tá indo embora?
- To saindo fora, baby, to chutando a bola.
Pensei no ponto alto da nossa relação e nas piores noites em que a carreguei, bêbada, subindo a escada. Tudo era muito difícil e era inevitável que fosse assim, não existem escolhas. O amor me pegava de surpresa, eu nem tinha acabado com a bebida no copo, às vezes no meio de uma refeição ele vinha e acabava com as minhas noites de sono bom. Fechando a porta atrás de mim, deixei ela e suas calcinhas, o vento frio entrando pelas frestas da janela.
Nunca soube dançar e, talvez por isso, caí em um forró com Stivie Ray Voughan tocando guitarra. Era ali que os nativos daquela ilha estranha se encontravam para tomar misturas afrodisíacas e baforar latas de loló. Sem saber muito o que fazer, encostei no balcão. Um balcão pode salvar muitas noites de um homem, um balcão pode estragar muitas noites de um homem.
- Vamos dançar. – Disse-me virando os olhos e se misturando às pedras restauradas da rua.
- Eu não sei dançar. Mas se você quiser a gente pode sentar e conversar, não que eu seja bom nisso também.
Meus amigos entraram, eram três, incendiando telhados e bebendo vinho barato. Caímos na noite de forrós e reggaes em esquinas tortas (havia muitas esquinas iguais, barcos e veleiros, qualquer um pode ficar perdido nas esquinas de cidades litorâneas coloniais, ruas iguais as de São Luís do Maranhão ou Paraty, difícil dizer ao certo onde estávamos).
Acordamos numa praia em que não havia como se chegar de carro (disse-me um caroneiro que morava lá há cinco anos). O que nos deixava apenas uma questão, ou havíamos pegado a trilha de três horas no meio da madrugada a pé, ou havíamos chegado de barco, não explicando o fato das mulheres lindas e, é claro (não há como fugir), forró e reggae. Tive a vaga idéia de que atravessamos a madrugada como Neal Cassady contando os trilhos do trem no frio cortante. Nós, ao contrário de Cassady, acordamos. Sempre se corre o risco de acordar e talvez seja esse o risco da imortalidade da alma dos viajantes desencontrados desenhando nas linhas do ar o significado do ser livre.
- Onde foi parar o vinho? Sussurrou um dos meus amigos.
- Vinho?
- É, o vinho.
Será que ele está falando comigo ou com aquele hippie? Eu não havia visto vinho nenhum. Deitei mais uma vez na areia da praia e adormeci, rezando pra que quando eu acordasse algo fizesse algum sentido, pra que eu pudesse entender pra onde ir e, principalmente, pra que eu não precisasse nunca mais voltar pra casa. Mas nem tudo é como a gente pede em orações pra Iemanjá. Acordei com uma dreadlocks me olhando assustada, pupilas dilatadas e respiração intensa.
- O que foi garota?
- Devolve o meu vinho.
- Eu já disse que não tenho nenhum vinho.
Melhor seria se eu desse a ela o vinho e falasse algumas palavras bonitas sobre as estrelas que estavam agora nascendo no horizonte escuro. Mas acontece que eu não tinha nenhum vinho e as estrelas já viraram clichês da madrugada. Só me perguntava onde estariam perdidos os meus amigos, cambaleando pela areia fofa da praia que, poderia ser Maresias não fosse o difícil acesso por carro, diziam que ali era um paraíso hippie. Muitas vezes já ouvi falar em paraísos hippies e nenhum deles realmente me fez a cabeça, mas essa praia parecia algo mais.
Com os meus amigos sumidos tudo o que eu podia fazer era comprar um vinho pra que então, quando me indagassem sobre tal, eu tê-lo em mãos.
- Legal ficou pra trás. – Disse-me Pior, um dos meus amigos que estava perdido.
Se Legal ficou então teríamos que voltar.
O que eu sempre temi foi ter que voltar, mas deixar um grande amigo na mão nunca foi meu forte. Talvez eu já tivesse visto isso acontecer assim que fechei a porta (com apenas meia pinta nas costas) e tentei esquecer ela e suas calcinhas de algodão, mas agora que tudo já havia acontecido era muito difícil dizer se a força do acontecimento estava me remetendo a falsas memórias ou se eu realmente era um visionário e pressenti tudo (o forró, os barcos, os amigos, o escorregão pelas ruas de pedra tombadas do patrimônio histórico, os gringos, os dreadlocks pelo caminho e no final, o paraíso encontrado tendo que ser deixado pela força da camaradagem). Era isso, pra mim não havia mais garotas em praias desertas e paradisíacas, teria que voltar pra casa e uma vez de volta seria muito difícil cair na estrada novamente.
- Não deixe de me dizer sobre isso, sobre as estrelas e os clichês da noite, não deixe de comprar o vinho e me acompanhar no violão. Não.
Como era estranho estar de volta, passando assim dois dias dormindo, dois dias sem sentir o gosto da comida, eu queria voltar, “we have to go back”. Alguém bate na porta. Alguém diz que quer o pior de mim. Eu quero fugir, mas se não sabe fazer, parou, vamos começar de novo.
É difícil falar, assim, sobre lulas e, obviamente, também é difícil falar sobre mulheres. Eu encontrei uma vez uma delas que entendia as indagações filosóficas e também sabia sobre a fuga da lula e suas implicações anatômicas, mas acontece que eu tive que voltar pra casa e comprar arroz, feijão, atum enlatado e também uma comida para os peixes, tive que pagar as contas de água, luz e tentar ligar o rádio naquela velha estação que toca música sinfônica. Eu tive que voltar pra casa e tentar arrumar algum dinheiro, algum dinheiro pra voltar praquela praia que, eu sabia, ainda guardaria todas as garotas com cabelos cacheados e todo o vinho desencontrado em garrafas viajando com mensagens de amor pelas ondas até o outro lado do atlântico. E seria inevitável, como sempre é.

Nossa casa de verão. João e eu, foto tirada pelo Mateus Marcelini.

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IV
Se ficasse muito tempo parado o sol faria um furo no meu rosto e a minha cabeça faria um furo no colchão dos dias seguidos dormindo prostrado sobre o lençol já rasgado, eu sabia muito bem disso.
A viagem foi horrível, mas até que foi bom voltar pra Ilhabela. Poxa vida, aquele lugar já havia me dado caldos de perrengues e os mosquitos ainda estavam por lá a importunar-nos. Caí meio que de pára-quedas num blues que na verdade era um rock.
Por favor, não distorçam o nome do blues, de tudo que já destruíram e de tudo que ainda vão destruir, deixem o blues em paz. Porém, de qualquer maneira, havia as estudantes de cinema e as mulheres de cabelos raspados dos lados e a cerveja mais gelada do continente, ou melhor, de toda a ilha.
Algo estava acontecendo e quando percebi parecia ser tarde demais pra ser controlado. Eu estava acordando periodicamente depois do meio dia, talvez pelas noites atravessadas com a lua refletida no mar. Novamente me encontrava sozinho. Decidi então cair na rua. Estendi o dedo e peguei uma carona pela estreita estrada da ilha. Um casal e sua filhinha de sete anos me colocaram pra dentro do carro.
- Olá rapaz.
- Oi, tudo certo? Pode me deixar na praia da Feiticeira?
- Tudo bem. O que você faz por aqui?
- Estou procurando um emprego.
- Ah é! E o que você faz?
- Eu sou escritor.
- Que legal! Olha filha, um escritor. Você tem algum livro publicado?
- Sim, chama-se “Não alimente o monstro cego e capenga”.
- É mesmo, ele fala do que?
- Ele conta a história de um homem que tinha diabetes e por isso ficara meio cego e coxo, ele também bebia muito e acabava xingando as pessoas e arrumando confusão, até que se apaixona por uma prostituta e começa a ver algum sentido na vida, só que um padre que era terrivelmente apaixonado pela prostituta acaba matando os dois e dando um tiro no próprio ouvido.
- Meu deus que horror. Quantos anos você tem?
- Vinte e um.
- E quantos tinha quando escreveu essa história?
- Uns dezoito. Tinha acabado de perder minha namorada e grande parte da inspiração se fora com ela. É aqui que fico, praia da feiticeira.
Bem, eu nunca havia sido muito bom naquilo, jogar conversa fora, e tinha a impressão que dessa vez não havia sido diferente.
A praia da Feiticeira era bem assim, um nada, um belo e gostoso nada. Dei um grande mergulho no mar e olhei pra areia. Ninguém. Era até legal. É claro que eu gostava muito do centro também com os bares e o blues, mas um fim de tarde ali poderia ser muito bom. Sozinho. Voltei caminhando por diversas outras pequenas praias não tão vazias, decidi não tentar a carona, andar a pé poderia me fazer algum bem. Lembrei do meu grande amigo Valder com sua carteira de motorista vencida dando cavalinho de pau nas esquias e de todas as garotas lindas de Belo Horizonte e dos portos e ilhas com garrafas de vinho.
Lembrei dela. Ela que conheci em Guaxupé, no meio dos morros ondulando no céu, ela que pedia cigarro pros travestis e bebia com as putas nas espeluncas baratas, o taco de sinuca, a garrafa de vodka. Poderia ser verdade que algo grande me esperava em algum lugar do futuro se eu voltasse pra casa pegando um bom ônibus. O sol já partia na linha com as ondas tentando nos enganar, refletindo-se oblíquo pela água turva do mar. “Que areia branca”, pensei, deitado ali nada parecia poder me atingir, deitado ali meus olhos se fechavam e eu rezava um terço estranho a Iemanjá pra que só acordasse no verão que vem, ou até no depois dele. Era difícil dizer o que aconteceria em seguida.

(Marcus Vinícius Marcelini)

2011

Um ano não passa,
um ano se prolonga
como as unhas não aparadas
e leva tudo de bom que eu tinha
leva tudo que me salvava
nas noites insones,
eu, zumbi da madrugada,
cheirando os paralelepípedos soltos da estrada,
um ano que não me trouxe nada
que me tira o sopro da vida
e me faz beber sozinho,
que passa de vagar
como um rastro falho no caminho,
um bar sem leis,
eu peço três, pra viagem.
Mostre-me o caminho de casa,
três dias e trezentas noites de falta.
Cheire o rastro da solidão,
siga o caminho de casa.

(Marcus Vinícius Marcelini)

Garota no Natal

Hoje ela veio de noite

vestida de cinza

pra me despertar

chamou meu nome

tomou um gole

tragou fundo

esculpida em mármore

e me disse

com toda a sabedoria

de seus dezesseis anos

“não fique aí sentado

esperando um milagre de natal”

O amor, baby,

o amor é fatal.

Vontades

Mas não é perigoso? – ela me perguntou. E imaginei Amyr Klink antes de partir em sua primeira grande viagem pelo Atlântico, sozinho, claro, porque ele não queria alguém junto com ele para falar sobre o quão perigoso era aquilo. Não é como ouvimos falar, tal pessoa morreu em um acidente assim. Não. Todos os que tentaram antes dele haviam fracassado tragicamente, ou seja, morreram. Mas ele sabia o que era ainda mais perigoso. Ele conhecia os verdadeiros perigos da vida. A pior forma de naufrágio, como ele deixou bem claro, registrado em língua escrita, resta na iminência eterna: não partir. E os que partem sabem do alívio que se tem por não ter sentido o enorme peso da idéia que não saiu da mente, e ali ficou como um tumor, crescendo lentamente, e que um dia pode matar de repente. Quando se está no percurso, não se sente o peso, e se pode morrer um pouco melhor do que quando ficamos, e vamos ficando, e um dia acabamos este ficar, e só. Simplesmente não fomos. E o que morre conosco é muito pouco, quase nada, e é o que somos, o que fomos, e o que seremos para sempre nas palavras dos que se lembrarem de nós. Pois eu quero estar sempre indo, e algumas vezes voltando. É por isto que Sena morreu indo. Era o que ele fazia. Muitas vezes se morre nos intervalos, que são muitos, e quase necessários, para que a vontade de ir cresça um pouco e tome forma novamente, e aí é tudo novo de novo. Loucura é ficar. Pois senão por que é que se está aqui? Quando crianças, ainda conseguimos ir um pouco mais livres, e ver o novo, e aprender. Aprendemos a ver, a ouvir, a andar, a falar, a correr, até que um dia nos ensinam a trabalhar. Depois disso não nos ensinam muito mais, e tudo o que queremos aprender é besteira. Que seja aprender a escrever. Que idéia! Se o governo fica sabendo você acaba preso por atitudes subversivas. E nunca mais sabemos como é sentir aquele alívio da criança que pode andar e perguntar e desenhar nas paredes, e criar, sem deixar a vontade passar. O artista e o cientista também sabem como é aliviante ver o pensamento tomar forma e sair para fora, para o mundo. É mais uma coisa que não vai morrer com a gente. E vamos deixando pedaços de nós mesmos, resultados de grandes expedições, representando muita coragem. Coragem de se mostrar por dentro, se colocando para fora. Senão, então, o que é que temos de nosso? O que é que temos aqui dentro? Vontades que deixamos envelhecer, pedaços de nós que matamos antes que eles tomem forma, pois talvez temos medo deles, medo de nós, de tudo o que podemos pensar, criar, fazer, transformar, e ninguém saberá do que éramos, pois não chegamos a ser por completo. Ninguém nos disse que podemos ser, então, deixa pra lá. Tem muito mais que eu quero dizer, mas não vou. Não importa. Agora eu tenho que trabalhar, pois isso de escrever é para os desocupados.

Tecnocrata

A agulha é depositada sobre o vinil
as 34 rotações por minuto, não sei porque,
não sei como, aquilo é transformado em som
e o som é bom.
A vontade se foca na música,
e é nela que repousamos,
não no dinheiro, nem no vinil,
nem mesmo no aparelho de som.
É a saciedade do comer, do beber,
do correr, do voar, do foder,
do entender,
ou do sentir,
que está na coisa,
mas não é a coisa,
e pode estar do mesmo modo
em outro aparato
tecnológico,
somos,
sim,
tecnocratas.

Fim da noite

Lá longe, é onde eu vou morar.
Onde?
Lá longe.
Longe? Mas longe de que?
De vocês, é claro,
e de todo o seu ruído,
mas não tão longe,
que eu não possa visitar,
pra comprar uns discos, filmes, livros,
se até lá não estiver tudo de graça na internet, claro.
Mas longe da gente?
Isso, fica melhor assim,
longe da gente.
Se tiver emprego.
Se tiver dinheiro,
pra manter a terra.
Se tiver uma caixa de som,
pra tocar CD e vinil,
e um piano, mais um órgão Hammond,
um mato pra eu mijar,
uma mulher
que venha me visitar,
e que esteja sempre a me esperar.
Amigos sempre ao alcance
pra tocar aquela música
e dividir uma garrafa,
um cachimbo,
uma varanda
e esperar o galo cantar
no fim da noite.

"'Coragem, Ferdinand', eu repetia, para me aguentar,
'de tanto ser posto no olho da rua em todo lugar você
certamente há de acabar descobrindo o troço que lhes dá
tanto medo, a todos eles, a todos esses filhos da puta,
sejam quantos forem, e que deve estar no fim da noite.
É por isso que eles não vão até lá, até o fim da noite.'"
(Louis-Ferdinand Céline, Viagem ao fim da noite, pg. 236, Companhia de Bolso, 2009)

Que eu sei que embaixo desta neve mora um coração

“Para deixá-la, precisei de muita loucura, e de um tipo frio e abjeto. Seja como for, defendi minha alma até agora e se a morte amanhã viesse me pegar eu nunca seria, tenho certeza, tão frio, malvado, tão pesado quanto os outros, de tanta gentileza e de tanto sonho que Molly me deu de presente durante aqueles poucos mesess de América.”

(Louis-Ferdinand Céline – Viagem ao fim da noite)

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